Rótulos. Os olhos também bebem – Jornal I

Rótulos. Os olhos também bebem

Rótulos. Os olhos também bebem

São um preâmbulo ao néctar: há de todas as cores, feitios e para todos os gostos. E há cada vez mais. Falamos dos rótulos, a cara do vinho

O primeiro rotuleiro

“Estávamos no início do milénio quando o designer Paal Myhre deixou a agência de publicidade em que trabalhava para, com um amigo, fundar a DOC, que fechou em 2009 para dar lugar ao atelier Myhre Design. “As agências de publicidade já faziam esse trabalho, mas não havia nenhuma que se dedicasse em exclusivo a isto”, recorda. “Rotuleiros, éramos só nós”, brinca.

Já lhe passaram milhares de rótulos pelas mãos, “entre rótulos de vinhos, brandy, cervejas, azeites, aguardentes, vinhos do Porto, espumantes e compotas”, refere. Na verdade, basta entrarmos na secção de vinhos de qualquer supermercado para nos deparamos com meia dúzia de rótulos do designer que, por exemplo, trabalha com a casa Ermelinda Freitas ou com a Sogrape, responsável pela distribuição de vinhos como o Grão Vasco ou Sandeman.

Paal é direto a explicar o que considera um bom rótulo: “É o que consegue chamar a atenção do consumidor, ao ponto deste pegar na garrafa de vinho e levá-la para casa”. O que, com as garrafeiras a transbordar, é uma tarefa cada vez mais complicada.

Fazer a diferença Segundo o designer, o mercado deu uma volta de 180 graus. “Dantes era o dono a fazer tudo: era marketeer, engarrafador, fazia quase os rótulos se fosse preciso”, descreve. “Hoje as empresas estão muito mais organizadas. Tanto que quase se começa “primeiro a pensar na marca e só depois a fazer o vinho”, comenta.

E os “truques habituais” deixaram de funcionar, até porque, também neste segmento de mercado, há modas. “Já não dá para pintar um rótulo só de laranja para chamar a atenção, é preciso partir para a segunda fase e contar uma história”, diz. “Os vinhos são como todos os produtos, precisam de ter um chamariz”. Mas faz uma ressalva: esse chamariz ou essa história“não pode soar a falso”. Até porque os próprios consumidores estão cada vez mais atentos e exigentes relativamente à estética – e à mensagem.

Fazer o vinho brilhar Além da mensagem, o texto também é importante. Rita Monteiro, copywriter (redatora publicitária) tinha plena consciência disso quando, há cinco anos – e depois de trabalhar numa agência de publicidade que fechou, onde já tinha feito, por exemplo, o lançamento da João Portugal Ramos– foi ter com Paal, que entretanto já tinha lançado a Myhre Design. “Tínhamos em comum anos a trabalhar vinhos, eu como copywriter ele como designer – chegámos a trabalhar os mesmos projectos”, diz. “Desenvolvíamos projectos desde 2011, mas o trabalho não se esgotava aí: havia a estratégia, o design, a fotografia… Assim nasceu a ideia de reunir os melhores na área para fazer o vinho brilhar, sem o trauma de criar uma agência”. A ideia de reunir esforços de diferentes áreas para um objetivo comum plasmou-se no consórcio Wine&Shine, que tem cinco empresas associadas: a Tinta Amarela (wine copywriting), Myhre Design (wine packaging), Dodesign (design e webdesign), Jorge Figanier Castro (fotografia de vinhos) e Shortfuse (vídeo).

O pacote completo para qualquer marca de vinhos brilhar promete – mas não faz milagres. “Pode ser o melhor rótulo do mundo, mas se o vinho for mau, os consumidores não voltam”, sentencia Paal. Já diz o ditado que as aparências iludem. Ou, possivelmente, não: é que há vinhos portugues mesmo muito, muito bons.”

Mariana Madrinha 19/12/2017

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